Debate no BIM Fórum Conference 2026 e no ENIC aponta que a integração entre modelagem e IA já saiu do piloto e começa a transformar projetos, obras e escritórios no país
Durante décadas, a tecnologia chegou à arquitetura de forma incremental. Primeiro o CAD substituiu a prancheta. Depois, o BIM substituiu o CAD. Cada transição levou anos, gerou resistência e, no fim, transformou a profissão de forma irreversível. Agora, uma terceira onda está em curso, e desta vez o ritmo é diferente: a inteligência artificial não chegou pedindo licença.
Em maio de 2026, o debate virou debate de obra, não de congresso. O BIM Fórum Conference 2026, realizado em São Paulo, reuniu especialistas e executivos do setor para discutir como a IA pode acelerar a adoção do BIM no Brasil, e o Encontro Internacional da Indústria da Construção (ENIC 2026), promovido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), colocou a mesma pergunta na pauta com força ainda maior. A mensagem que emergiu dos dois eventos foi a mesma: o setor está num ponto de inflexão, e quem não entender isso com urgência perderá não uma oportunidade, mas um ciclo inteiro.
O BIM em 2026: de ferramenta de projeto a infraestrutura de informação
A forma como os profissionais enxergam o BIM mudou. Durante muito tempo, a sigla soava como sinônimo de modelagem tridimensional, um jeito mais sofisticado de fazer plantas. Esse entendimento ficou para trás. O BIM tende a ser visto cada vez menos como uma ferramenta de projeto e cada vez mais como uma infraestrutura estratégica de informação da construção. Internacionalmente, o BIM passa a ser entendido como um ativo de gestão, apoiando não só projetistas, mas também construtoras, gestores de ativos e operadores. Linha2arquitetura
Essa ampliação de escopo tem consequências diretas para os arquitetos. Dominar BIM em 2026 não significa saber modelar em Revit ou Archicad: significa entender como as informações do modelo circulam ao longo do ciclo de vida do edifício, como elas são acessadas em campo, como alimentam decisões de gestão de ativos e operação. É uma mudança de postura mais do que de software.
De acordo com Ruben Millon, da Graphisoft, o cruzamento de dados viabilizado pela IA deve acelerar o uso de recursos como tomada de decisão preditiva e design generativo colaborativo, tornando-os as principais frentes de criação de valor do BIM. “Quem tiver dados estruturados de projetos anteriores terá uma vantagem competitiva enorme. A IA permitirá antecipar riscos de prazo, custo e qualidade antes que eles se tornem problemas concretos.” A frase traduz um deslocamento importante: o valor competitivo deixa de estar no desenho e passa a estar nos dados que sustentam o processo de projeto. Casa e Mercado
O que a IA já faz na prática dentro dos escritórios
A pergunta que mais circula entre arquitetos hoje em dia é objetiva: a IA substitui o arquiteto? A resposta que os especialistas repetem é igualmente objetiva: não substitui, mas o arquiteto que usa IA supera o que não usa. A inteligência artificial na arquitetura já faz parte do dia a dia de milhares de escritórios, não como uma curiosidade tecnológica, mas como ferramenta de trabalho real: gerando renders em segundos, sugerindo soluções de layout, otimizando especificações e acelerando processos que antes consumiam dias. Collection
No campo do BIM, as aplicações concretas já saíram do estágio experimental. Já existem aplicações em extração automática de quantitativos, detecção de interferências e geração de documentação técnica com modelos de linguagem, ainda que de forma bastante pontual. O gargalo, segundo os especialistas do setor, não é tecnológico: é de dados. A IA precisa de informações bem estruturadas para entregar resultados confiáveis, e boa parte das empresas brasileiras ainda opera com projetos mal documentados, históricos fragmentados e processos não padronizados. Casa e Mercado
Para a arquiteta Lívia Guerra, coordenadora da RETC Infraestrutura, a IA pode ser um catalisador para derrubar as barreiras de adoção do BIM no Brasil. “O desenvolvimento da IA pode baratear o acesso ao BIM e vai forçar as empresas de software a se flexibilizarem e incorporarem a IA com mais rapidez.” Essa leitura é importante porque coloca a inteligência artificial não como uma camada adicional de complexidade, mas como um facilitador de acesso a uma metodologia que ainda tem baixa penetração entre escritórios menores e profissionais autônomos no país. CBIC
O arquiteto que a tecnologia exige: menos operador, mais estrategista
Desde os tempos em que os projetos eram representados exclusivamente em papel, o setor de Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação (AECO) já passou por marcos importantes com a adoção do CAD e, mais recentemente, do BIM. Agora, uma nova transição se impõe, e promete ser ainda mais profunda. ArchDaily Brasil
O arquiteto e pesquisador Ítalo Guedes, diretor do Master em Inteligência Artificial para Arquitetura e Construção da ZIGURAT Institute of Technology, descreve essa mudança com precisão: “Se o BIM nos ensinou a projetar com mais informação, a IA potencializa os profissionais a projetar com maior nível de automação e precisão para compreensão, avaliação, simulação e geração.” As quatro capacidades que ele enumera formam um ciclo: a IA compreende padrões existentes, avalia desempenho de propostas, simula cenários e gera alternativas em velocidade que o raciocínio humano isolado não alcança. ArchDaily Brasil
Dados recentes mostram que escritórios que adotam sistemas integrados de gestão reduzem em até 50% o tempo gasto com burocracia, liberando tempo para prospecção de clientes e para o detalhamento criativo dos projetos. O ganho não é apenas operacional: profissionais que passam menos tempo em tarefas repetitivas chegam ao processo criativo com mais energia e com mais espaço para decisões que realmente dependem de julgamento humano. DOit
Leonardo Santana, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), chamou atenção para a desigualdade de adoção dentro do próprio país: o BIM não é uma realidade uniforme no Brasil, e cada estado carrega suas próprias condições, maturidade técnica e infraestrutura. O mesmo raciocínio vale para a IA: os benefícios da tecnologia não se distribuem automaticamente por toda a cadeia produtiva. Chegam primeiro a quem já tem capacidade de investimento, de treinamento e de estrutura de dados. Para que a transformação seja setorial, e não apenas pontual, será preciso que entidades como o CAU/BR, o SENAI e as universidades assumam um papel ativo na formação e na disseminação dessas ferramentas em toda a extensão da cadeia, dos grandes escritórios até o profissional autônomo que atua em cidades do interior. CBIC
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
