Especialistas apontam avanços em renderização, orçamento e detecção de interferências, mas alertam que a adoção plena nos fluxos técnicos ainda é inicial
A combinação entre modelagem da informação da construção (BIM) e inteligência artificial deixou de ser tema de debate distante para se tornar realidade no dia a dia de escritórios de arquitetura e engenharia brasileiros. O assunto foi um dos destaques do BIM Fórum Conference 2026, realizado em maio em São Paulo, que reuniu especialistas e executivos do setor para discutir os avanços já conquistados por meio da tecnologia e as expectativas para os próximos anos.
Segundo Ruben Millon, representante da Graphisoft que participou do evento, ainda existem caminhos importantes a percorrer para ampliar o uso da inteligência artificial nos fluxos técnicos de projeto, coordenação e execução de obras. Apesar de grandes empresas já aplicarem IA em escala em diferentes processos internos, o ambiente técnico segue em estágio inicial, com aplicações concretas concentradas principalmente na extração automática de quantitativos, na detecção de interferências entre projetos e na geração de documentação técnica com apoio de modelos de linguagem.
Da modelagem à automação: como a IA se conecta ao BIM
O avanço mais recente discutido por especialistas do setor é a integração entre BIM, inteligência artificial e internet das coisas, combinação que vem transformando o orçamento de obras em um sistema mais dinâmico e conectado a todo o ciclo de vida da edificação. Segundo publicação do Instituto INBEC voltada à especialização em engenharia e arquitetura, essa integração já reposiciona o papel do profissional de custos, que deixa de atuar apenas como operador de planilhas e passa a interpretar dados de forma mais estratégica.
Para o arquiteto e pesquisador Ítalo Guedes, diretor do Master em Inteligência Artificial para Arquitetura e Construção do ZIGURAT Institute of Technology, a mudança representa uma nova etapa depois da consolidação do próprio BIM. Segundo ele, se o BIM ensinou o setor a projetar com mais informação, a inteligência artificial potencializa os profissionais para atuar com maior automação e precisão nas etapas de compreensão, avaliação, simulação e geração de projetos, conforme publicação do ArchDaily Brasil.
Essas capacidades já aparecem de forma concreta ao longo do ciclo de vida da construção, da concepção inicial até o acompanhamento da obra, ainda que a adoção plena dependa de capacitação técnica e de mudança cultural dentro dos próprios escritórios.
Os desafios para a adoção da tecnologia no Brasil
Apesar do avanço, a incorporação de IA na construção civil brasileira enfrenta obstáculos que vão além da tecnologia em si. Um levantamento da Mind Group aponta que a cultura conservadora do setor, acostumada a processos tradicionais transmitidos entre gerações de profissionais, ainda gera resistência à mudança em parte dos escritórios. Muitos profissionais experientes enxergam as novas ferramentas como ameaça, e não como recurso complementar ao trabalho criativo e técnico do arquiteto.
A capacitação também é apontada como gargalo relevante, já que o país ainda tem poucos profissionais que combinam conhecimento em engenharia civil e arquitetura com competências em ciência de dados e inteligência artificial. Para tentar reduzir essa lacuna, universidades brasileiras vêm adaptando seus currículos para incluir disciplinas voltadas a BIM, programação e análise de dados nos cursos de engenharia civil e arquitetura, movimento que deve se intensificar nos próximos anos conforme a demanda por profissionais qualificados aumenta.
O impacto direto na rotina dos escritórios de arquitetura
No dia a dia dos escritórios, a inteligência artificial já aparece com mais força na etapa de renderização, permitindo gerar imagens de alta qualidade em poucos segundos, além de contribuir para sugestões de layout, otimização de especificações técnicas e cálculo de eficiência energética das edificações. Ferramentas voltadas à gestão de escritórios de arquitetura também vêm incorporando automação para reduzir o tempo dedicado a tarefas burocráticas, liberando os profissionais para se concentrarem na prospecção de clientes e no detalhamento criativo dos projetos.
O consenso entre os especialistas ouvidos pelas publicações do setor é de que a tecnologia não substitui o arquiteto nas decisões criativas, no relacionamento com o cliente e na coordenação da obra, papéis que continuam dependendo da experiência humana. O que muda, segundo eles, é a competitividade entre profissionais: quem incorpora essas ferramentas ao fluxo de trabalho tende a ganhar vantagem em relação a quem opta por manter apenas os processos tradicionais.
Para os próximos anos, a expectativa é de que a integração entre BIM e inteligência artificial continue avançando, especialmente à medida que mais empresas brasileiras investirem em capacitação e que o mercado amadurecer no uso de dados ao longo de todo o ciclo de vida das edificações, tema que deve seguir pauta constante em eventos do setor como o próprio BIM Fórum.
Fontes consultadas:
BIM e IA devem alavancar o uso de dados na indústria da construção no Brasil
Do BIM à IA, o salto para a construção verdadeiramente inteligente
Inteligência Artificial + BIM: a nova fronteira do orçamento de obras
IA na Construção Civil e BIM em 2026: Automação, Segurança e Sustentabilidade
