Projetos de diferentes regiões do país mostram como universidades estão usando pátios, jardins, áreas abertas e espaços compartilhados para aproximar ensino, convivência e cidade
A arquitetura dos espaços universitários brasileiros passa por uma transformação que amplia a ideia tradicional de sala de aula. Um levantamento publicado pelo ArchDaily nesta segunda-feira (21) reúne dez projetos de instituições de ensino superior espalhadas por diferentes regiões do país e mostra como pátios, jardins, áreas de convivência e espaços compartilhados passaram a ocupar papel importante na organização dos campi. (ArchDaily)
A mudança está relacionada também à própria expansão do ensino superior brasileiro. Segundo o levantamento, o país tinha cerca de 226 mil matrículas na graduação em 1960, enquanto em 2023 esse número se aproximava de 10 milhões. Com a ampliação do público universitário, os campi passaram a lidar com novas escalas de circulação, convivência e integração com os espaços urbanos.
Nesse contexto, a arquitetura deixa de tratar o edifício universitário como uma estrutura isolada. Os projetos analisados mostram diferentes maneiras de organizar fluxos, conectar ambientes internos e externos e criar espaços que possam ser utilizados para atividades acadêmicas e também para convivência.
Pátios e áreas abertas ampliam os espaços de aprendizagem
A relação entre arquitetura e aprendizagem aparece como um dos principais pontos dos projetos analisados. Em vez de concentrar todas as atividades em salas fechadas, diferentes propostas utilizam pátios, jardins, corredores, áreas abertas e espaços de convivência como extensões do ambiente educacional. (ArchDaily)
Essa abordagem tem relação com um conceito presente na arquitetura universitária brasileira desde projetos como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU-USP. Concebido por Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi em 1961, o edifício utiliza rampas, pátios e vãos livres para criar uma experiência espacial contínua, na qual a circulação e a convivência também fazem parte da vida acadêmica.
O levantamento mostra que essa ideia aparece atualmente em diferentes contextos e escalas. Na Unisinos, em Porto Alegre, por exemplo, o projeto ocupa uma quadra de 13 mil metros quadrados e estabelece uma relação direta com a avenida onde está localizado. Já a Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos, organiza seus volumes em torno de pátios, aproximando o desenho do campus de uma estratégia de planejamento urbano. (ArchDaily)
Em Juazeiro do Norte, no Ceará, os Pavilhões Pedagógicos da Unileão adotam outra solução. Quatro volumes são inseridos entre construções preexistentes e conectados por jardins e espaços de convivência, demonstrando como a arquitetura pode trabalhar simultaneamente com o clima, a escala local e a estrutura já existente.
Dez projetos mostram diferentes caminhos para a arquitetura universitária
O levantamento do ArchDaily reúne projetos desenvolvidos em diferentes regiões do Brasil e por escritórios distintos. Entre eles estão a Reforma da Sede da Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo, assinada pelo MMBB Arquitetos em parceria com Hugo Mesquita e Carolina Bueno; a Unidade de Ensino e Docência, do CEPLAN e CoGa Arquitetura; e o Núcleo de Prática Jurídica da Unileão, desenvolvido pelo Lins Arquitetos Associados. (ArchDaily)
Também aparecem o Bloco Didático da UFC Crateús, projetado pela Rede Arquitetos e Croquis Projetos, o campus da Unisinos em Porto Alegre, desenvolvido pela AT Arquitetura, e os Pavilhões Pedagógicos da Unileão. A lista inclui ainda o campus da Universidade Anhembi Morumbi em Piracicaba, o Centro Universitário Maria Antônia, a Faculdade Rudolf Steiner e um projeto da Fiocruz.
Apesar das diferenças entre as instituições, os projetos apresentam uma característica comum: nenhum deles depende de um único modelo de campus. As soluções arquitetônicas são adaptadas às condições específicas de cada local, levando em consideração fatores como edificações existentes, fluxos urbanos, clima, escala do terreno e necessidades de convivência.
Essa diversidade também mostra que a arquitetura universitária contemporânea pode atuar em diferentes escalas. Há projetos que reorganizam grandes áreas e outros que trabalham com intervenções pontuais, mas todos procuram estabelecer relações entre os edifícios e os espaços que os conectam. O campus passa, assim, a funcionar não apenas como conjunto de salas e laboratórios, mas como uma infraestrutura de circulação e convivência.
Universidade passa a funcionar como parte da cidade
A transformação dos espaços universitários também está relacionada à maneira como os campi se conectam com as cidades. Segundo o ArchDaily, o crescimento do ensino superior fez com que essas áreas passassem a concentrar grandes fluxos de pessoas e atividades, aproximando a universidade de uma infraestrutura urbana. (ArchDaily)
Essa relação pode ser percebida no projeto da Unisinos em Porto Alegre, que ocupa uma quadra inteira e responde à escala comercial da avenida onde está inserido. Em São José dos Campos, a organização da Universidade Anhembi Morumbi ao redor de pátios também aproxima o projeto de uma lógica urbana, em vez de tratar cada edifício como uma unidade independente.
Em outros casos, a estratégia consiste em utilizar espaços livres para estabelecer conexões entre construções. Jardins, pátios e áreas de circulação podem funcionar como pontos de encontro e também como elementos que organizam os deslocamentos dentro do campus. A arquitetura passa, dessa maneira, a trabalhar com os espaços intermediários tanto quanto com os edifícios.
A tendência apresentada pelos dez projetos não significa o abandono das salas tradicionais, mas uma ampliação das possibilidades de aprendizagem e convivência. Ao incorporar áreas abertas, espaços compartilhados e relações mais diretas com o entorno, a arquitetura universitária brasileira passa a considerar o campus como um território em constante adaptação, capaz de reunir ensino, circulação, convivência e integração urbana. (ArchDaily)
Fonte principal: ArchDaily — Da sala de aula ao pátio: como 10 universidades brasileiras repensam o espaço de aprendizagem
