Um projeto brasileiro de arquitetura hospitalar conquistou reconhecimento internacional ao transformar uma antiga área de serviços e circulação técnica em um espaço de convivência, permanência e contato com a natureza. A Rua da Saúde, implantada na Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, recebeu o primeiro lugar no City’Scape Landscape Award 2026, na categoria dedicada a paisagens para bem-estar, hospitais, espaços de cuidado e jardins terapêuticos.
A premiação ocorreu em 18 de setembro de 2026, na Triennale di Milano, em Milão, na Itália. O resultado foi divulgado pela própria Santa Casa e posteriormente repercutido pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR). O reconhecimento coloca em evidência uma intervenção realizada em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e voltada à qualificação da experiência cotidiana em um complexo de saúde.
De área técnica a espaço de cuidado
Com aproximadamente 4 mil m², a Rua da Saúde conecta diferentes edifícios da Santa Casa e organiza um percurso mais acolhedor para pacientes, familiares, visitantes e profissionais. A área, antes associada a funções operacionais, passou a reunir vegetação, luz natural, locais de permanência e caminhos acessíveis, criando uma praça-jardim integrada ao funcionamento do hospital.
A cobertura é formada por 1.647 painéis de vidro, solução que permite a entrada de iluminação natural e contribui para a percepção de um ambiente aberto, ainda que protegido. A configuração também oferece condições para circulação e permanência em diferentes momentos, especialmente para pessoas que permanecem no hospital por períodos prolongados ou que não conseguem acessar áreas externas convencionais.
Segundo as informações divulgadas pela Santa Casa, o espaço é utilizado em caminhadas terapêuticas e no deslocamento entre setores do complexo. A intervenção, portanto, não se limita à criação de um cenário ajardinado: ela articula circulação, descanso e contato com elementos naturais em uma área inserida na rotina de atendimento e trabalho da instituição.
Biofilia e humanização na arquitetura hospitalar
A proposta se aproxima de princípios de biofilia, conceito associado à incorporação de elementos e experiências da natureza nos ambientes construídos. No caso da Rua da Saúde, a presença de áreas verdes, a entrada de luz e a criação de microambientes de permanência ajudam a configurar uma experiência espacial mais sensível às necessidades de quem utiliza o hospital.
De acordo com o escritório Somos EXP, responsável pelo projeto, a intervenção foi pensada a partir de condições de conforto térmico, visual e emocional. Esses aspectos ampliam o papel do paisagismo em equipamentos de saúde, que deixa de atuar apenas como complemento visual e passa a participar da organização dos percursos e da qualificação dos momentos de espera e pausa.
A acessibilidade também integra a solução espacial. Ao conectar diferentes edifícios e oferecer percursos de circulação em uma área coberta e ajardinada, o projeto contribui para tornar os deslocamentos mais compreensíveis e acolhedores. A combinação entre proteção climática, áreas de permanência e vegetação reforça a ideia de que a arquitetura hospitalar pode cuidar não apenas dos procedimentos, mas também da experiência das pessoas.
Execução com o hospital em funcionamento
Um dos aspectos destacados na divulgação do projeto é a realização da obra com o complexo hospitalar em funcionamento. Essa condição exige planejamento para compatibilizar as etapas de execução com os fluxos de pacientes, equipes, visitantes e serviços, além de preservar a continuidade das atividades da instituição.
O trabalho contou com a participação da Somos EXP, da Seferin Saúde, da Schlaich Bergermann Partner e de equipes técnicas da Santa Casa. A articulação entre arquitetura, paisagismo, engenharia e operação hospitalar foi necessária para transformar uma área de suporte em um espaço de uso cotidiano sem desassociá-lo das demandas práticas do complexo.
Para o campo da arquitetura, o projeto evidencia como intervenções em hospitais podem combinar desempenho, acessibilidade e bem-estar. A Rua da Saúde também mostra que áreas de circulação, quando requalificadas, podem assumir funções sociais e terapêuticas, oferecendo espaços de convivência em meio a uma rotina marcada por atendimentos, espera e deslocamentos.
Reconhecimento internacional para uma solução brasileira
A conquista em Milão amplia a visibilidade de uma experiência desenvolvida em Porto Alegre e insere o projeto no debate internacional sobre paisagismo e ambientes de cuidado. A premiação reconhece uma solução que integra natureza, infraestrutura hospitalar e uso coletivo, com atenção às condições de conforto e permanência.
Em vez de tratar o jardim como elemento isolado, a Rua da Saúde incorpora a paisagem à estrutura de conexão do hospital. O resultado é um espaço que reúne passagem e permanência, apoio à rotina institucional e possibilidades de pausa para diferentes públicos. Essa integração é o principal argumento do projeto ao discutir novos caminhos para a humanização da arquitetura hospitalar.
O caso reforça a importância de pensar hospitais como conjuntos urbanos complexos, nos quais áreas externas e intermediárias também influenciam a qualidade da experiência. Em Porto Alegre, uma antiga área técnica foi convertida em uma praça-jardim acessível e utilizada diariamente, demonstrando como o paisagismo pode participar ativamente das estratégias de cuidado.
