Casa Biribinhas, do Studio MK27, é destaque entre mais de quatro mil inscritos na 14ª edição do A+Awards; premiação reafirma força criativa do Brasil na cena arquitetônica mundial
A arquitetura brasileira voltou ao topo do palco internacional. Em junho de 2026, a plataforma Architizer anunciou os vencedores da 14ª edição do A+Awards, uma das premiações mais respeitadas do setor, e o Brasil saiu do evento com um destaque de peso: a Casa Biribinhas, do Studio MK27, conquistou reconhecimento entre mais de quatro mil projetos inscritos em mais de cem categorias. A residência, localizada no litoral paulista, em Iporanga, reuniu numa única obra o que há de mais denso na produção arquitetônica contemporânea: leveza estrutural, materiais regionais e uma relação sensível com a paisagem costeira.
A distinção chega num momento em que o olhar dos jurados internacionais parece ter mudado de direção. Segundo o jurado Ismail Seleit, os projetos vencedores desta edição representaram um retorno a uma arquitetura ponderada e em escala humana, que prioriza o lugar, o trabalho artesanal e a sensibilidade ambiental. A frase sintetiza o que a Casa Biribinhas comunica com precisão: nada de exibicionismo formal, nada de espetáculo gratuito. O que se vê ali é uma arquitetura que sabe onde está.
Uma casa que flutua entre o concreto e a natureza
A Casa Biribinhas reimagina uma construção existente e a transforma num pavilhão flutuante, onde arquitetura, design de interiores e paisagem se entrelaçam sem fronteiras visíveis. Trabalhando dentro da pegada da estrutura original, o Studio MK27 criou um volume compacto e vertical, com planos térreos transparentes e uma cobertura em ripas de madeira que funciona como filtro de luz, não como barreira. As sombras que esse elemento projeta ao longo do dia são parte essencial do caráter da casa, mutáveis e vivas. Architecture Hunter
A Casa Biribinhas leva o nome do dossel de galhos finos, elemento comum na arquitetura vernacular brasileira, que sombreia a varanda e confere ao andar superior o caráter de uma cabana de praia. Essa referência ao vocabulário construtivo local não é decorativa: ela ancora o projeto em sua geografia, faz a casa pertencer ao lugar antes de querer surpreendê-lo. A paleta de materiais, concreto branco, vidro, madeira e seixos no piso, estende para dentro os tons e as texturas da praia. The Plan
O andar superior, envolto por um corrimão metálico desenvolvido ao longo de vários protótipos, parece levitar sobre a laje principal. O efeito de leveza é reforçado pelos painéis de vidro deslizantes no térreo, que se abrem completamente para o jardim e para a piscina biomorfa. A separação entre interior e exterior, nesse projeto, é quase filosófica: existe, mas não insiste.
O Studio MK27 e a tradição do olhar cinematográfico
O Studio MK27, fundado pelo arquiteto Marcio Kogan em 1980, tem uma trajetória construída na tensão produtiva entre o rigor formal e a generosidade espacial. Kogan começou como cineasta antes de se consolidar como arquiteto, e essa origem deixou marcas permanentes na forma como o escritório pensa o espaço. Para ele, a experiência espacial é fundamental nos projetos, e vem do cuidado especial com proporções, com o percurso desenhado através do espaço e com a narrativa que esse percurso cria.
Com mais de cem residências projetadas, o Studio MK27 concentra grande parte de sua produção na faixa costeira do interior paulista, projetando casas que exploram o clima subtropical, com interiores que se abrem para jardins exuberantes e permitem que os moradores vivam do lado de fora durante boa parte do ano. A Casa Biribinhas segue essa linhagem, mas vai além: a equipe, que hoje conta com 71 profissionais, dois terços dos quais mulheres, apostou numa abordagem coletiva de desenvolvimento, com trocas diárias que funcionam como reuniões de roteiro antes de cada decisão de projeto. The Plan
O reconhecimento internacional do escritório não é novo, mas o A+Awards 2026 chega num ciclo especialmente produtivo. No iF Design Award 2026, o Brasil bateu seu próprio recorde com 112 projetos premiados, e o Studio MK27 teve vários trabalhos reconhecidos, incluindo as peças Bézier e Bloco, desenvolvidas em parceria com a Lumini. O país começa a consolidar uma presença sistemática, não episódica, nas principais premiações do design e da arquitetura mundiais. Centro Brasil Design
O que o prêmio diz sobre o momento da arquitetura brasileira
O reconhecimento da Casa Biribinhas não pode ser lido de forma isolada. Ele integra um movimento mais amplo de valorização de projetos que respondem ao lugar, que usam materiais com honestidade e que constroem relações consistentes entre o edifício e seu entorno imediato. Essa postura, que durante décadas foi tratada como regionalismo, começa a ser lida como vanguarda num mercado global cansado da arquitetura como performance.
Para os profissionais brasileiros, o momento traz perguntas úteis. O que faz da arquitetura produzida no Brasil algo distinto? Quais são os elementos desse vocabulário que atravessam escalas, climas e programas? A Casa Biribinhas oferece algumas respostas concretas: a relação com a luz natural, o uso do artesanato local, a dissolução das fronteiras entre interior e paisagem. São escolhas que têm raízes na tradição modernista brasileira, mas que o Studio MK27 reelabora sem nostalgia.
O A+Awards também introduziu nesta edição novas categorias voltadas à valorização do artesanato e da produção artesanal, um sinal de que o mercado internacional começa a reconhecer o valor do que não pode ser replicado em série. Nesse quesito, a produção brasileira parte com uma vantagem clara: o Brasil tem artesanato, tem diversidade de materiais e tem arquitetos que sabem como mobilizá-los. Caberá às próximas gerações decidir se vão aproveitar esse patrimônio ou deixá-lo de lado em nome de uma modernidade importada e genérica.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
